O futuro do setor das comunicações móveis

*Luigi Gambardella, presidente da EUBrasil, ex-presidente do conselho executivo da ETNO

Em vista do próximo Congresso Mundial de Telefonia Móvel (Mobile World Congress), em Barcelona, algumas reflexões são necessárias em torno das principais áreas que deverão estar no centro das ações em um futuro próximo, caso a indústria móvel queira continuar a ter um caráter inovador e gerar crescimento. Na minha opinião, aqui estão alguns pontos para refletir: em primeiro lugar, compreender a interação entre evolução tecnológica, regulamentação e dados sobre as comunicações móveis. Em segundo lugar, é preciso mudar o modo de percepção/medição da indústria móvel de uma margem estática e focada em preço para medidas mais dinâmicas que reflitam a economia a longo prazo da indústria, tais como investimentos e inovação. E, em terceiro lugar, atacar desafios críticos do mercado que a indústria móvel enfrenta, permitindo-lhe rentabilizar a crescente demanda de dados.

Compreendendo a interação entre evolução tecnológica, regulamentação e dados móveis, especialmente os de vídeo, e as suas implicações para a indústria.

As comunicações móveis devem crescer entre 20 a 100% ao ano, ou mais, nos próximos 10 anos. As previsões mais otimistas indicam que o impacto nos investimentos de bens de capital será substancial. Grande parte deste aumento pode ser accionado pelo serviço de vídeo. Alguns tipos de tráfego de vídeo serão mais facilmente rentabilizados do que outros, por exemplo, filmes/esportes vs mídia social. Cada vez mais, os reguladores estão tentando evitar qualquer tipo de discriminação no tráfego das redes. Embora o foco tenha sido em geral nas redes fixas, as políticas não fazem diferenciação entre as redes de acesso. Esta explosão de demanda irá alterar significativamente a economia das redes móveis na próxima década e irá colocar uma pressão significativa sobre os investimentos em bens de capital e sobre a qualidade dos serviços.

Nesse contexto, o padrão 5G e futuras evoluções tecnológicas serão importantes para além das normas técnicas. Se as redes tradicionais de voz e dados estão sobrecarregadas com tráfego, sendo incapazes de investir em  capex (capital expendure) para manter os níveis de serviço, o 5G poderá permitir o surgimento de redes mais apuradas e focadas em nichos como M2M, que, livres de cobertura e obrigações regulamentares, podem ser mais eficazes na prestação de serviços.

Desenvolvendo um conjunto alternativo de métricas sobre o desempenho da indústria para refletir com mais precisão sobre a contribuição do setor móvel

Métricas para avaliar o desempenho do setor criaram uma visão da indústria focada em preços e margens. Esta é uma visão estática e ultrapassada, entretanto. Enquanto estas dimensões são importantes e devem ser observadas, existem áreas que exigem melhorias em alguns países. Muito foco sobre essas variáveis faz com que se perca grande parte da economia subjacente à indústria.

O setor móvel enfrenta várias exigências dos governos e formuladores de políticas no sentido de continuar aumentando a capacidade, cobertura e qualidade dos serviços. Tudo isso exige investimentos significativos, além de uma visão evolucionária e de longo prazo. Mas para mudar o foco, a indústria deve suportar um conjunto alternativo de métricas para definir uma visão mais dinâmica, que reflita uma economia de longo prazo da indústria.

A indústria deve dar forma a um conjunto de métricas que suportem uma visão mais abrangente do desempenho do setor. Isto pode significar tanto um conjunto externo de KPIs (destinada ao público em geral, decisores políticos, reguladores), como interno (que visa padronizar a visão do desempenho da indústria para os utilizadores).

Alguns exemplos de onde mudanças são necessárias: medidas de desempenho em mercados saturados, que vão além do ARPU, com menos relevância em mercados hiper saturados. Posteriormente, uma mensagem mais clara e nítida sobre a economia de longo prazo da indústria e a natureza dinâmica dos investimentos para além do foco estático atual centrado em margem operacional e preços. Além disso, deve haver a necessidade de medidas de concentração não apenas nas telecomunicações, mas em fornecedores e mercados complementares, tais como fabricantes de equipamentos e de dispositivos, utilizadores de OTT e mídia. Finalmente, para serem bem sucedidas, estas medidas não devem ser apenas credíveis, mas também intuitivas e transparentes. Por exemplo, é fácil comparar valores entre mercados e o benefício imediato dos preços baixos para o consumidor. É menos evidente, entretanto, comparar os níveis de investimento e benefícios de longo prazo para os consumidores.

Abordando questões econômicas críticas em torno da estrutura da indústria e crescimento de dados (em particular de vídeo e M2M)

Embora o crescimento tenha abrandado substancialmente, o desempenho financeiro do setor manteve-se saudável e seus mercados principais preservaram-se no centro de um crescimento significativo da comunicação digital. Ou seja, a demanda subjacente aos serviços que o setor proporciona é sólida. Rentabilizar essa demanda do consumidor é fundamental para garantir a sustentabilidade a longo prazo do setor. Isto provém de dois fatores críticos: Definição de uma estrutura industrial sustentável, e clarificação do papel do espectro na condução da estrutura e desempenho da indústria.

O foco deve ser na garantia de uma estrutura industrial sustentável de longo prazo. Definir os elementos dessa estrutura, articulando os seus benefícios, e comunicando os custos de desvio das mesmas é fundamental para garantir que o setor possa assegurar o crescimento da demanda prevista para a indústria móvel.

Quanto ao papel do espectro para a estrutura e o desempenho da indústria móvel, é fundamental compreender que a influência desse espectro sobre a indústria parece ir além do fornecimento da capacidade radio e do  número de utilizadores. Grandes quantidades de espectro subutilizado, acompanhadas por obrigações de cobertura que assegurem que alguns operadores terão excesso de capacidade e redes “vazias”, podem estar desempenhando um papel significativo na evolução descendente dos preços em mercados específicos.

Finalmente, no que diz respeito à relação com os responsáveis políticos e reguladoras, é muito claro que as operadores móveis têm alcance significativo junto a amplos segmentos da população, tornando-os alvos políticos “fáceis”. Neste ponto, penso ser necessária uma mensagem muito mais acertada e clara quanto à contribuição positiva do setor de telefonia móvel para o crescimento, o progresso tecnológico e o investimento. É preciso incluir ainda a forma como a indústria móvel interage com outros setores e a sua própria concentração relativa. Isto requer uma mudança na visão dos governos e reguladoras no sentido de uma parceria para o desenvolvimento económico, apoiada por esforços para transformar a opinião pública.

 

 

 

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