Desafios do novo mandato de Dilma Rousseff em um país dividido

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Por Alfredo Valladão, presidente do conselho consultivo da EUBrasil*

As urnas falaram. Dilma venceu. Apertado mas ganhou. A regra democrática será respeitada porque o Brasil demonstrou ser uma grande democracia, apesar de uma campanha eleitoral que meteu o pé na jaca dos insultos e do baixo nível. O problema de qualquer democracia é que a minoria dos eleitores tem que se submeter à maioria que sai dos votos. E essa por sua vez tem que respeitar e dialogar com a primeira. Mas quando o resultado é tão estreito essa maioria já sai enfraquecida.

Não dá para esconder o sol com peneira. O país mostrou que está dividido – e muito. Primeiro, uma nítida divisão territorial. A vitória de Dilma se deve essencialmente aos 13 milhões de votos de vantagem que ela teve nas regiões Norte e Nordeste, enquanto Aécio levou todas as outras – Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Este corte Norte/Sul (mesmo se a candidata do PT ganhou raspando em Minas e Rio de Janeiro) corresponde a uma clara divisão social. O Nordeste, a região mais beneficiada pelos programas sociais do governo, votou massiçamente na situação. Um voto conservador, que revelou o temor de que um novo governo pudesse por em causa esses programas. Melhor ficar com o que já existe. No Centro-Oeste pioneiro e em São Paulo e no Sul em geral, com economias mais dinâmicas e com sede de modernização econômica e de moralização da vida pública, o voto foi claramente por mudança de política e alternância no poder. Só que a presidente, para governar, vai ter conciliar estes dois “Brasis”.

Não vai ser fácil. O primeiro dossiê – e mais urgente – do segundo mandato, vai ser a economia. O Brasil está quase em recessão, com uma inflação acelerando, um buraco no orçamento cada dia mais fundo, um endividamento generalizado, um investimento produtivo mixuruca e um perigoso déficit da balança de pagamentos. O único indicador no verde é a taxa de emprego, mas até isto está ameaçado pela freada do crescimento econômico. Daqui para frente, e até o fim de 2015, o próximo ministro da Fazenda vai ter que fazer milagres. De duas uma. A presidente Dilma pode insistir em continuar dizendo que tudo vai bem e persistir no mais do mesmo até esborrachar o país no muro da estagflação. (Já vimos este filme várias vezes no século XX). Mas é mais provável que ela também será obrigada a recorrer a um ajuste. E ajustes, sempre doem. Nesse caso, vai significar juros altos, desvalorização da moeda, acabar com os preços represados da energia e transportes, reduzir drasticamente o déficit orçamentário, investir nos serviços públicos, atacar o “Custo Brasil” e várias outras coisas ditas “maldades”. Tudo isto vai pisar em um sem número de calos. Como convencer os mercados e empresas a ajudar e ao mesmo tempo conservar as políticas sociais, vai ser o grande desafio do segundo governo Dilma.

Desafio complicado também porque o núcleo duro de sustentação parlamentar ao governo saiu enfraquecido das urnas. E no Brasil, graças a Deus, não há política possível sem o Legislativo, por mais corrupto e irresponsável que seja. Num Congresso ainda mais fragmentado, Dilma terá que negociar com um sem número de fisiologismos, cada um querendo o “seu”. Não é a melhor receita para cumprir um programa de ajustes. Mais grave ainda: a brutalidade da campanha deixou um ranço raivoso na opinião pública. O novo fenômeno das redes sociais multiplicou por mil os insultos, as mentiras, os rumores mais malucos. Em muitos casos isso criou verdadeiros ódios pessoais até no seio de famílias. Como remendar esse verdadeiro rasgão social tendo que fazer reformas dolorosas?

Quem sabe, a única vantagem da presidente reeleita que vai pegar esse rabo de foguete perigoso, é que não precisa mais se preocupar com outra reeleição. Ela, que nunca foi uma militante pura e dura do PT, não precisa continuar refém de um partido que perdeu forças nesse último pleito e que está apavorado com a possibilidade de perder as regalias do poder. Para ela, há muitas possibilidades de alianças com setores e forças políticas comprometidas em encontrar uma saída moderna e inovadora para o modelo de crescimento brasileiro. Só que isto só será possível se a “Presidenta” finalmente deixar a teimosia ideológica para trás e olhar pragmaticamente para futuro e não para o passado.

*Para a Radio France Internationale.