Como o setor digital pode revelar uma oportunidade de trilhões de euros

LG
As oportunidades do relançamento do setor digital da Europa são enormes. A indústria pode desempenhar o seu papel com uma colaboração fecunda e positiva. Porém, muito pode e deve ser feito para promover uma nova, moderna onda de políticas digitais, afirma Luigi Gambardella.

Luigi Gambardella é presidente da European Telecommunications Network Operators (ETNO).

O novo presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, é um “digital believer”. Além de colocar as políticas sobre o assunto no topo da sua agenda política, ele nomeou políticos com experiência como os próximos líderes digitais na Comissão. O ex-presidente da Estônia Andrus Ansip e o ex-comissário de Energia Guenther Oettinger estão prestes a assumir como vice-presidente e comissário, respectivamente, para Sociedade e Economia Digitais.

Durante suas audiências de confirmação no Parlamento Europeu, ambos falaram com orgulho sobre o relançamento do setor digital da Europa. Eles querem fortes jogadores europeus que sejam capazes de concorrer nos competitivos mercados mundiais. Eu concordo com eles e acredito que, para alcançar esse objetivo, nós precisamos promover uma mudança de percepção, de aproximação e de mentalidade. Nós precisamos dessa mudança porque os atuais paradigmas políticos parecem não estar mais funcionando. Nós precisamos das políticas certas que apoiem novos modelos de negócios e a coragem para implementar essas políticas. Nós podemos fazer que essa situação seja favorável para todos os envolvidos.

Mudando a percepção, dividindo objetivos
A percepção da indústria de telecomunicações tem sido há muito tempo influenciada pela onda da liberalização: sendo o principal objetivo abrir os mercados à competitividade e preços mais baixos, companhias eram vistas como “grande e dominante jogador” ou como “cobrando muito dinheiro” de consumidores. Isso fazia sentido no começo e o objetivo de conquistar mercados abertos e competitivos foi alcançado. Na perspectiva atual, porém, essa maneira de olhar para os mercados ainda faz sentido? Nós não vamos nunca abraçar a sério o objetivo de crescimento e de “novo começo” para a Europa se não mudarmos essa percepção. Uma mudança na percepção não custa um centavo, mas é necessária para iniciar uma nova fase de formulação de políticas.

Vamos falar então de objetivos. Nós temos coletivamente, como companhias, cidadãos e instituições europeias, um objetivo em comum para agarrar futuras oportunidades?

Como ETNO, nós temos uma proposta para um objetivo em comum: vamos desvendar juntos uma enxurrada de novos investimentos em redes e serviços. Nós precisamos deles para os cidadãos da UE: eles exigem redes de classe mundial, serviços inovadores e opções de escolha. Nós precisamos deles para as companhias: elas querem a espinha digital da Europa para fazer das empresas mundialmente competitivas. Nós precisamos desses investimentos também para o setor público da Europa: com mais investimentos, podemos oferecer serviços públicos mais eficientes.

Por isso, eu gostaria que nós apostássemos em um “novo acordo” para o crescimento. E um novo acordo requer que todos nós compartilhemos uma visão e trabalhemos para a sua realização. Se não acontecer, não vai haver crescimento.

Em direção a uma era de colaboração
Anos atrás, alguns de nós tiveram o privilégio de conhecer Stephen Temple, o pai do GSM M.o.U., aqui em Bruxelas. Ele atribui o sucesso do projeto GSM à intensa e leal cooperação entre operadores da UE, o que fez a assinatura do documento original em setembro de 1987 possível.

É exatamente isso que está faltando no momento. Se os governos da UE levam a agenda digital a sério, eles precisam fazer mais do que aplicar regras de concorrência e esperar até que a “mão invisível” de Adam Smith entregue banda larga para todos. Para unir o continente, é necessário não apenas cooperação entre os governos, mas também entre as companhias. E tal cooperação não pode ser frustrada por regras de concorrência excessivamente restritivas.

O próximo desafio será, portanto, como melhorar a cooperação entre a indústria e as instituições, a fim de atingir os objetivos da nova Comissão. Isso pode ser feito, por exemplo, criando uma nova plataforma encarregada de facilitar o cumprimento de metas através do desenvolvimento de soluções inovadoras da indústria.

A oportunidade de trilhões de euros
O que está em jogo é uma oportunidade enorme. De acordo com estimativas recentes de Arthur D. Little para a Agenda para Europa do ETNO, o setor de telecomunicações europeu será capaz de contribuir com um investimento total de mais de €250 bilhões nos próximos cinco anos. Mas isso não é o suficiente. Para maximizar o valor econômico e o bem-estar, são necessárias políticas mais coerentes e favoráveis. Isso é fundamental, porque de acordo com ADL, o multiplicador econômico pode variar substancialmente, de 1.5 a 13 vezes os investimentos iniciais. No melhor cenário, o valor em jogo para a transformação digital da Europa poderia valer €3,3 trilhões. Essa não é uma oportunidade excelente de ser agarrada?

Mas fique atento: infraestrutura e investimento sem uma verdadeira transformação digital são ineficientes. Simplesmente manter os preços baixos sem perspectivas de inovação é um desperdício, é insustentável e vai produzir excedentes a curto prazo sem a criação de bem-estar a longo prazo.

Isso pode ser feito, em primeiro lugar, atenuando a regulamentação prévia e com a construção de uma governança mais simples e mais rápida. Com menos regras, uma aproximação mais intersetorial e comercial vai ter o mérito de preparar o terreno com um ambiente mais favorável aos investimentos.

Em segundo lugar, nós devemos reconhecer melhor as dinâmicas competitivas da nova cadeia de valor. Os serviços exigidos pelos consumidores implicam uma cadeia de valor digital globalizada. Por isso, quando e onde a regulamentação ainda é apropriada, o princípio “mesmo serviço, mesmas regras” deve ser aplicado em interesse de consumidores e empresas.

Em terceiro lugar, nenhum de nós gostaria que outros jogadores venham e comprem para diminuir as telecomunicações da UE. Então, nós devemos reconhecer que a escala de construção é importante. Ao fazer isso, nós também daremos aos consumidores europeus companhias mais fortes que podem proporcionar um excedente do consumidor muito mais alto a longo prazo.

Por fim, cidadãos europeus querem ter certeza sobre privacidade e segurança de dados. Confiança é fundamental. Quando em falta, a aceitação de consumidores e empresas de novas oportunidades no ecossistema digital está em risco. Não podemos nos permitir perder enormes condutores de crescimento como big data e a revolução Cloud.

Em resumo, as oportunidades são enormes. A indústria pode exercer sua parte de uma maneira fecunda e positiva. Mas muito pode e deve ser feito através da promoção de uma nova, moderna onda de políticas digitais.