Wall Street Journal: O que os investidores europeus de telecomunicações querem

Artigo de opinião publicado no Wall Street Journal, escrito pelo presidente da EUBrasil, que também é presidente da ETNO.

Mobile phones at boothPor LUIGI GAMBARDELLA

Uma nova onda de políticas digitais da União Europeia está prestes a nascer. Jean-Claude Juncker, presidente eleito da Comissão Europeia, colocou o mercado único digital no topo da sua lista de prioridades. A mensagem de Juncker é clara: o setor digital é um elemento essencial para o crescimento econômico, e os líderes europeus precisam explorar as políticas em Internet e Tecnologias da Comunicação. Mas como chegar lá?

Para começar, não haverá crescimento sem investimento. A decisão de um investidor em apostar nas empresas europeias pode fazer toda a diferença quando se trata do crescimento ou da estagnação do continente. Assim, líderes em busca de políticas pró-crescimento teriam uma melhor alternativa se entendessem o que os investidores querem da indústria europeia de telecomunicações.

Permita-me compartilhar minhas melhores suposições.

Em primeiro lugar, os investidores de telecomunicações querem garantias de que as regulamentações futuras não vão restringir as oportunidades de negócios. Estamos no alvorecer de uma nova onda de investimentos no setor, o que exigirá enorme capital para 4G e fibra ótica. Se a Europa quer dinheiro fluindo para esses projetos, precisa retirar o peso da regulamentação do investimento de capital. Em outras palavras, toda a abordagem regulatória sobre os mercados deve mudar. Vamos privilegiar acordos comerciais competitivos, em vez de regras obsoletas concebidas na década de 1990.

Em segundo lugar, os investidores querem que as empresas de telecomunicações operem com eficiência e, em última análise, eles querem ver uma indústria saudável. Curiosamente, alguns pensam que a consolidação trará poucos benefícios para os consumidores. Eu vejo isso como uma visão muito estreita dos interesses dos consumidores: por que não devemos permitir que os agentes mais fortes do mercado ofereçam produtos e serviços de qualidade superior para todos? Será que não acreditamos que empresas de telecomunicações mais saudáveis também possam agregar mais valor aos consumidores no longo prazo?

Precisamos também promover a competitividade global das nossas empresas: ou permitimos que elas se tornam mais fortes internamente – e, portanto, relevantes na cena mundial – ou deixamos que grupos externos à UE façam aquisições, encolhendo as empresas europeias de telecomunicações.

O terceiro ponto que os investidores desejam é a gestão centralizada do espectro. Se pensarmos no espectro como a força vital da indústria de telefonia móvel, devemos, então, concordar que ele deve ser livre das atuais inconsistências nacionais, especialmente se estivermos nos movendo em direção a uma Europa livre de roaming. A redução de barreiras relacionadas ao consumidor é importante, mas não é suficiente para construir o mercado único digital que todos nós queremos. Enquanto o cerne da indústria de telefonia móvel for tratado de forma fragmentada, simplesmente não haverá um mercado único.

Minha quarta e última suposição é que os investidores veem demarcações tais como telefonia “fixa-contra-móvel” como ultrapassadas. Tais linhas simplesmente não existem mais na opinião deles, porque os mercados mudaram e funcionam de forma diferente agora.

É por isso que sou a favor de um novo marco regulatório e um novo conjunto de políticas digitais. Ambos precisam reconhecer corretamente que a cadeia de valor do mundo digital mudou radicalmente. O atual quadro regulatório das telecomunicações está ultrapassado. Precisamos de menos regulamentação e mais políticas pró-industriais, além do reconhecimento de que “digital” deve ser uma questão horizontal tratada por todos os comissários europeus.
Se queremos digitalizar a Europa, precisamos de políticas mais claras e mais orientadas que possam aumentar a demanda, tornando o continente mais inteligente. Nos espaços onde uma abordagem regulatória para o mundo digital ainda faça sentido, é preciso ter certeza de que ela será residual e trará oportunidades para que os agentes que prestam serviços semelhantes sejam regulamentados da mesma maneira.

A meu ver, esta não é uma “lista de compras” para o próximo mandato da Comissão Europeia. Pelo contrário, é um resumo dos itens da agenda que devem ser compartilhados por todas as forças a favor do crescimento. A solução dos investidores pode não ser o único caminho, e ela vai precisar fazer parte de um projeto político mais amplo. Mas os políticos devem ouvir os investidores, especialmente num momento em que todos nós estamos ansiosos por crescimento.