6º Encontro Empresarial Brasil-UE – Brasília – EUBrasil Speech

EU-Brazil Summit, Brasília, 23.01.2013

(English version after the version in Portuguese)

O modelo de crescimento brasileiro da primeira década dos anos 2000 foi baseado principalmente no enorme superávit comercial criado pelas exportações das commodities, com preços muito elevados devidos a esse período de crescimento global extraordinário.

Este excedente permitiu ao Brasil de pagar sua dívida externa e lançar enormes e importantes transferências sociais. Estas transferências reduziram a pobreza e criaram um grande e próspero mercado de consumo doméstico.

Este boom de consumo foi bom para os negócios nacionais assim como para os importadores, atraindo muitos IED, em particular da Europa.

Tudo isso foi possível porque as autoridades brasileiras seguiram durante 15 anos uma política macro-económica sustentável e previsível.

Hoje, este modelo atingiu o limite máximo, por muitas razões:

a) A crise mundial atingiu os preços e os mercados de compradores das commodities brasileiras, e levou déficits na balança de pagamentos.

b) Para manter o crescimento interno e proteger o emprego, as autoridades deram prioridade ao desenvolvimento do mercado interno através de uma grande injeção de crédito. Este desperdício de crédito veio à custa das finanças públicas (com déficits crescentes) e dos investimentos.

c) As empresas industriais domésticas se focalizaram no mercado interno e exportaram sempre menos. Resultado: no início de 2000, as exportações brasileiras foram 60% de produtos manufaturados e 40% de commodities. Hoje é exatamente o contrário. E a indústria brasileira tornou-se muito menos competitiva.

d) Hoje, o consumo é mais de 80% do PIB e o investimento apenas cerca de 18% do PIB (um dos menores percentuais dos países em desenvolvimento). Tudo isto é insustentável.

e) O resultado de tudo isso: emprego com bons números mas altos déficits públicos, inflação subindo, um enorme déficit nos investimentos e a intervenção do governo cada vez mais pesada nas variáveis ​​macro-económicas.

f) Tudo isso levou a uma taxa de crescimento decepcionante nos dois últimos anos (2,5% e, em 2012, 0,9% – o que os brasileiros chamam de “Pibinho”).

A Presidente Dilma, em sua viagem para a França, reconheceu que hoje, o maior desafio para o crescimento do Brasil  é restabelecer a competitividade económica, para finalmente enfrentar o “Custo Brasil” através de grandes investimentos na área  da infra-estrutura, da educação, da regulamentação fiscal, nos entraves burocráticos para as empresas, etc.

O problema é que o Brasil não pode continuar cavando mais fundo nos seus déficits públicos (ainda mais, a tendência arraigada do governo de priorizar o papel do estado no processo de produção é também uma fonte de pressões inflacionárias).

Este problema, apesar do atual mercado do consumidor em plena atividade, minou a confiança empresarial no futuro do crescimento econômico. Resultado: o investimento privado tem sido inferior de 4,5% em 2012, em comparação com 2011.

O Brasil está em um ciclo vicioso: menos investimentos, menos crescimento, mais crédito publico, mais endividamento do consumidor (mais de 50% das famílias têm dívidas), aumento dos déficits públicos, mais inflação, menos confiança no futuro da economia … e menos investimentos …

As autoridades brasileiras estão tentando lançar grandes programas de competitividade, especialmente na infra-estrutura, mas isso vai levar algum tempo para mostrar resultados. Enquanto isso, o Brasil está apostando em um impulso que vem da Copa do Mundo em 2014 e nos Jogos Olímpicos em 2016.

As autoridades também estão favorecendo mais negócios PPP, a fim de explorar o indispensável investimento privado. Portanto, há grandes oportunidades para as empresas europeias.

As autoridades brasileiras estão preocupadas também com a concorrência industrial chinês. Isso abre possibilidades para cooperação UE-Brasil sobre essa questão.

Não há possibilidade de chegar, num futuro próximo, a um acordo UE-Mercosul, que está preso desde 2004. Mas, para entrar em um novo modelo de crescimento, o Brasil precisa ter acesso a mercados estrangeiros (e a UE é o seu cliente mais importante) e abrir mais seu mercado, a fim de aumentar a competitividade das suas empresas.

A mais recente pesquisa sobre os fluxos de comércio, feita pela OMC e a OCDE, com base no valor acrescentado e não nos valores totais ou nos volumes convencionais, mostrou que no mundo interdependente de hoje com cadeias produtivas transnacionais, o protecionismo (especialmente em componentes) pode gravemente ferir os exportadores nacionais; mostrou também que os serviços representam mais de um terço do valor acrescentado dos produtos industriais. Hoje -se alguém quiser ser um trader bem sucedido-  deve-se focalizar em favorecer os fluxos que aumentam a produtividade dos setores industriais e se interessar muito mais aos setores de serviços de cada país.

Tudo isso abre enormes oportunidades para uma relação econômica UE-Brasil. Como o Brasil não pode negociar acordos comerciais clássicos sem o Mercosul, a UE deve pressionar para o que pode ser discutido bilateralmente, que é “qualquer coisa, menos o comércio” (regulamentos, normas, facilitação de negócios, regras de investimento, política fiscal, deburocratization..)

A UE, no meio de uma grande crise interna, também deve tentar facilitar os IED brasileiros.

O Brasil tem também um interesse vital em aprofundar a sua parceria económica com a Europa a fim de não ser isolado pelo lançamento de uma negociação FTA Transatlântica entre EUA-UE e pelo avanço das « Trans-Pacific Partnerships » dos EUA (TPP). Estes são os clientes brasileiros mais importantes e o Brasil não pode correr o risco de ser bloqueado por estas duas novas grandes iniciativas comerciais.

Atualmente a economia brasileira está em uma encruzilhada. Para evitar outra estagnação de longo prazo (o famoso “chicken flight” – o “vôo da galinha”) tem que dar um salto grande, aceitar e fomentar uma economia e uma sociedade muito mais abertas e competitivas. Uma relação profunda com a UE poderia ser um extraordinário “plus” para que o Brasil volte na estrada e tenha sucesso.

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EU-Brazil Business Summit, Brasilia, 23.01.2013

The Brazilian growth model of the first decade of the 2000s was based mainly on huge trade surplus that came from commodities exports, whose very high prices were due to this period of extraordinary global growth.

This surplus permitted Brazil to pay its external debt and to launch huge important social transfers. These transfers helped to reduce poverty and created a big and thriving domestic consumer market.

This consumer boom was good for domestic business and importers alike, and attracted a lot of FDI, particularly from Europe.

All this was possible because Brazilian authorities followed during 15 years a sustainable and predictable macro-economic policy

Today this model has hit a ceiling for many reasons:

a) The global crisis hit the prices and buyers markets for Brazilian commodities, and led to deficits of the balance of payments

b) In order to keep the domestic growth and to protect employment, authorities prioritize the development of the domestic consumer market by a huge injection of credit. This credit splurge came at the expense of public finances (growing deficits) and of investments

c) Domestic industrial enterprises focused on the internal market and exported less and less. The result that we can see is: at the beginning of 2000, Brazilian exports were 60% manufactured goods and 40% commodities. Today it is exactly the other way around. Furthermore, Brazilian industry has become much less competitive.

d) Today, consumption is more than 80% of GDP and investment only about 18% of GDP (one of the smallest percentage in the developing world). All this appear to be unsustainable.

e) As a result of all this we can observe: good employment numbers, but more public deficits, inflation creeping up, a huge investment deficit, and more and more heavy government intervention on the macro-economic variables.

f) All this led to unsatisfactory growth rate for the last two years (2,5% and, in 2012, 0,9% – what Brazilians call the “Pibinho”).

President Dilma, in her trip to France, acknowledged that Brazil’s growth biggest challenge today is to reestablish economic competitiveness, to finally tackle the “Custo Brasil” with huge investments in infrastructures, education, fiscal regulation, bureaucratic barriers to business, etc.

The problem is that Brazil cannot keep on digging deeper its public deficits (the government ingrained tendency to prioritize the role of the state in the production process is also a source of inflationary pressures).

This problem, in spite of the present full-employment consumer market , has decreased entrepreneurial trust in the future of economic growth. Result: private investment has been 4,5% weaker in 2012 compared to 2011.

Brazil is in a vicious cycle: less investment, less growth, more public-backed credit, more consumer indebtedness (more than 50% of families have debts), more public deficits, more inflation, less trust in the future of the economy… and again less investment…

Brazilian authorities are trying to launch big competitiveness programs, particularly in infrastructure, but this will take time to show results. In the meantime, Brazil is betting on a boost that would come from the Soccer World Cup in 2014 and the Olympic Games in 2016

They are also favoring more business-friendly PPPs in order to tap the indispensable private investment. So there are huge opportunities for European firms to invest in Brazil.

There are also worries deriving  from Chinese industrial competition. That opens possibilities for EU-Brazil cooperation on that matter.

There is no possibility of arriving, in the foreseeable future, at an EU-Mercosur agreement that is stuck since 2004. But to enter into a new model of growth, Brazil needs access to foreign markets (and the EU is its most important customer market) and needs to open up much more its own market in order to enhance its firms competitiveness.

The latest research on trade flows, done by the WTO and the OECD, based on value-added and not on conventional total values or volumes, has shown that in today’s interdependent world with transnational production chains, protectionism (especially in components) can badly hurt national exporters, and that services account for more than one-third of value added of industrial products. Today, if one wants to be a successful trader, the focus should be put on favoring flows that enhance the productivity of the industrial sectors and on giving much more attention to each country’s service sectors.

All this opens huge opportunities to a EU-Brazil economic relationship. Because Brazil cannot negotiate classic trade deals without Mercosur, the EU should press for what can be discussed bilaterally, which is “anything but trade” (regulations, standards, business facilitation, investment rules, fiscal policy, de-burocratization… you name it)

The EU, in middle of a huge internal crisis, should also try to facilitate Brazilian FDI.

Brazil has also a vital interest in deepening its economic partnership with Europe in order not to be isolated by the launching of a US-EU Transatlantic FTA negotiation and by the advancement of the US led Trans-Pacific Partnership (TPP). These are the Brazilian most important clients and Brazil cannot risk being locked out by these two new big trade initiatives.

Finally, Brazilian economy is at a crossroads. To avoid another long-term stagnation (the famous “chicken flight” – o “vôo da galinha”) it has to make a big jump into accepting and fostering a much more open competitive economy and society. A deep relationship with the EU could be extraordinary “plus” in order for Brazil to start on that road and be successful.