Desaceleração do comércio mundial está se acentuando

A desaceleração do comércio mundial nos últimos trimestres tem sido significativa, com praticamente todas as grandes economias registrando deterioração na expansão de suas exportações, de acordo com levantamento do Barclays Bank, de Londres.

Esse cenário reforça a importância de os países continuarem estimulando a demanda doméstica para compensar o menor crescimento de suas exportações, dizem analistas.

Em abril, a Organização Mundial do Comércio (OMC) já baixou a projeção de crescimento das exportações para 3,3% neste ano, comparado a estimativa anterior de 4,5% – que já estava abaixo da expansão média anual de 5,2% dos últimos 20 anos.

O futuro diretor-geral da OMC, o brasileiro Roberto Azevêdo, terá, ao assumir o cargo, desafios bem maiores do que impedir o fiasco total da Rodada Doha de liberalização comercial.

Em vez de só focar em tarifas ou subsídios ou de ficar discutindo com embaixadores em Genebra, o futuro xerife do comércio mundial precisará buscar rapidamente contato com os líderes políticos e discutir sobre a economia global, para evitar que o protecionismo se alastre.

“Acreditamos que Azevêdo pode dar uma nova dinâmica nas negociações na OMC e a estimular a economia mundial”, afirma Luigi Gambardella, presidente da Etno, a associação das empresas de telecomunicações da Europa, refletindo as expectativas do setor privado.

Com a atividade nos Estados Unidos e na China crescendo em menor ritmo, e com a zona do euro em recessão, diminuíram os sinais de que o crescimento da economia mundial poderiam atingir um pico neste ano. O frágil estado da economia mundial aumenta o peso sobre os exportadores das economias emergentes em 2013. O “Export Climate Index”, estuda da consultoria britânica Markit, sinaliza mais desaceleração nos volumes exportados pelos emergentes no segundo trimestre.

Os EUA, com as exportações representando apenas 14% do PIB, têm mais espaço para se acomodar com a baixa do comércio mundial. A expectativa é que a forte alta nos impostos ocorrida no primeiro trimestre e cortes nos gastos públicos conduzirão a uma menor demanda doméstica e menor crescimento do PIB no segundo trimestre.

Na zona do euro, a situação é bem mais difícil, com exportações e demanda doméstica em deterioração persistente.

O Banco Central Europeu (BCE) pode cortar mais a taxa de juro, para quase zero, nos próximos meses.

No Japão, a desvalorização do iene ajudará as exportações (leia texto ao lado). Mas, no momento, as vendas externas continuam crescendo num ritmo lento.

No caso dos emergentes, os dados de abril já publicados por Brasil, Coreia do Sul, Taiwan e China, representando metade das exportações do grupo, mostra persistente declínio no crescimento das vendas externas.

As importações da China originárias de outros países emergentes, e que servem em parte para reexportação, igualmente diminuíram em abril.

A menor expansão das exportações dos emergentes vem ocorrendo nos últimos meses. Em valor, as vendas cresceram 3,2% ao ano em março, comparado a 4% em fevereiro.

Em termos reais (volume do comércio corrigido da inflação e variação cambial), as exportações dos emergentes diminuíram tambem sua expansão, de 6% em janeiro (comparado ao mesmo mês de 2012) para 4,8% em fevereiro.

A baixa no ritmo é generalizada, mesmo que a Ásia continue a ter melhor desempenho que outras regiões. Os asiáticos aumentaram suas vendas em 7,1% em valor em março, contra 7,7% em fevereiro.


Já a América Latina teve contração de 4,4% em março e de 2,9% em fevereiro.

A divergência de desempenho é atribuída pela Capital Economics, de Londres, em parte à queda de preços de matérias-primas, de 7,5% em março comparado ao mesmo periodo de 2012.

A consultoria projeta queda de preços das commodities entre 10% e 15% até o ano que vem, e com isso as exportações de vários emergentes vão tambem baixar.

A questão é como, nesse cenário, os países vão querer se engajar em negociações e, portanto, concessões na OMC.

Para Azevêdo, porém, os compromissos de abertura não podem estar limitados a um cenário de retração ou expansão da economia.

“A verdade é que nunca teremos todos eles [os 159 países membros] em momento de expansão econômica ao mesmo tempo, e sempre haverá situação menos favorável para uns negociarem do que para outros”, afirmou.

Fonte: Assis Moreira – Valor Econômico