Operadoras caminham na Europa para consolidação

Por Assis Moreira – Valor Econômico

A Comissão Europeia pretende detalhar até outubro, e implantar “o mais rápido possível”, o que poderá ser o mercado comum de telecomunicações (telefonia, internet etc.).

Para tentar convencer os 27 paises-membros, Bruxelas vai preparar novas propostas sobre temas como fusão, gestão de frequências móveis e regulamentação de preços.

Se houver a decisão política de avançar, estará pavimentado o terreno para uma enorme onda de consolidação de operadores no Velho Continente, com o objetivo de criar condições para que o setor de telecomunicações volte a crescer.

Neelie Kroes, a comissária europeia de telecomunicações, afirmou que nas últimas décadas a União Europeia procurou liberalizar e melhorar os mercados de telecomunicações, impulsionando por mais concorrência, baixando preços de telefonia e de acesso à internet por banda larga e ampliando direitos do consumidor.

O problema é que a União Europeia está fragmentada em 27 mercados nacionais de telecomunicações, cada um um com seu órgão regulador. Como consequência, o consumidor tem sempre o problema de pagamento de roaming, por exemplo, e não se beneficia de planos mais baratos oferecidos por companhias de outros paises do bloco. Há anos os reguladores europeus tentam eliminar as tarifas de roaming – como são chamadas as ligações interurbanas quando o usuário está fora de sua área de origem – para os clientes dos países-membros.

As operadoras, por sua vez, não conseguem ter o tamanho e a escala necessários para investir, inovar e competir globalmente.

“Uma das principais razões por trás da atual queda de faturamento enfrentada pelo setor de telecomunicações é a fragmentação do mercado europeu, e isso dificulta mais serviços inovadores”, disse Luigi Gambardella, presidente da Associação Europeia de Empresas de Telecom (Etno, na sigla em inglês).

Para se ter uma ideia, a Europa tem 104 operadores de telefonia celular comparado a 7 nos EUA, além de 1,2 mil de telefonia fixa e 1,5 mil de TV a cabo.

Dados recentes mostram contração de 8% na receita das teles europeias nos últimos anos, comparado à alta de 72% na Ásia entre 2006-2011, de 56% nos Estados Unidos e de 26% na América do Sul.

No cenário atual de fragmentação, estima-se em US$ 810 bilhões a diferença de faturamento entre o setor de informação e comunicações da Europa e dos Estados Unidos e da Ásia, o que é conhecido como “gap em competitividade”.

As teles reclamam também de perda de receita com serviços, inclusive de telefonia, prestados por empresas de internet, como Google, Skype, Viber entre outros, sem serem remuneradas por isso.

Se a queda no faturamento em telefonia fixa e celular persistir, o mercado europeu de telecomunicações poderá perder € 325 bilhões até 2020, segundo estudos.

“É crucial que os operadores europeus sejam autorizados a alcançar uma maior escala através de consolidação, para ter melhor posição para investir na nova geração de infraestrutura fixa e móvel”, disse Gambardella.

Para alguns analistas, se o projeto de mercado único avançar, o número de operadores de telefonia celular deveria cair dos 104 atuais para menos de 10 na Europa, se for levado em conta a mesma média de clientes dos EUA.

A Comissão Europeia sabe que a briga política será dura, a começar para estabelecer um regulador comum, em vez dos 27 atuais. Países como o Reino Unido não querem ceder mais fatias de seu poder a Bruxelas.

Por sua vez, companhias de telecomunicações europeias consideram que está em jogo um plano para o setor voltar a crescer. Enquanto concorrentes nos EUA, Japão e Coreia do Sul têm investido pesadamente em novas redes, a Europa fica para trás, afetada por quatro anos de queda no faturamento do setor.

Em termos de capitalização de mercado, as europeias registraram queda de 28% ante o crescimento de 18% para redes de operadores da Ásia.

Para a comissária Neelie, estabelecer o mercado comum europeu de telecomunicação digital pode dar um reforço de até € 110 bilhoes por ano para a economia europeia, ou 0,8% do PIB do bloco.

Fonte: Assis Moreira – Valor Econômico